Portugal pode produzir muito mais azeite, o suficiente para não importar.

Moura inaugura nesta quinta-feira a XII Feira Nacional de Olivicultura, tentando atrair novos públicos com debates sobre o azeite na arte e demonstrações por chefs. A produção não tem parado de subir na região.

Portugal pode produzir muito mais azeite, o suficiente para não importar 1

Os velhos olivais tradicionais têm vindo a ser substituídos pelos intensivos e pelos superintensivos

Manuel Fialho tem à sua frente um montinho de folhas cheias de números e gráficos. “Por nós passa a economia agrícola destes dois concelhos”, diz o gerente da Cooperativa Agrícola Moura e Barrancos, mostrando a facturação anual: 15,7 milhões de euros, para 4000 cooperadores, 1200 dos quais olivicultores.

Mas os números contam mais histórias. Mostram, por exemplo, que 73% dos três milhões de toneladas de azeite produzidos por ano no mundo vêm da União Europeia, e Portugal representa 2% (à frente estão a Espanha, com 46%; a Itália, com 15%; e a Grécia, com 10%). “Nós, que temos condições extraordinárias para o olival, temos ainda uma produção muito pequena”, lamenta.

Novo gráfico para completar o raciocínio: Portugal consome anualmente 78 mil toneladas de azeite e exporta 58 mil, ou seja necessita por ano de 136 mil. E, no entanto, só produz 63 mil, sendo obrigado a importar 73 mil toneladas. “Há um desequilíbrio na balança comercial. Ainda importamos mais dez mil toneladas do que as que produzimos.”

Mas não tem de ser assim, afirma. “Nas décadas de 60 e 70, Portugal era auto-suficiente no consumo de azeite, e exportador líquido. Produzia cerca de cem mil toneladas anualmente.” O que é que aconteceu desde então? “Arrancou-se olival por todo o lado. Arrancou-se, por exemplo, todo o do Ribatejo.” E só recentemente “se começou a despertar para a importância da olivicultura”, depois dos “grandes investimentos que espanhóis e portugueses começaram a fazer no Alentejo.” Por isso, Manuel Fialho tem uma convicção: Portugal pode produzir muito mais e fazer crescer os 2% que representa actualmente.

Moura, no Alentejo, foi sempre uma zona de olivais, razão pela qual no final dos anos 1980 começou a organizar a Olivomoura, Feira Nacional de Olivicultura – cuja XII edição começa hoje (até domingo), com a presença da ministra da Agricultura.

Santiago Macias, vereador da Câmara de Moura, quis, este ano, dar outro carácter à feira, tentando recuperar alguma dessa cultura em torno do olival. Macias não tem folhas com números para mostrar, mas tem um jardim – um jardim de oliveiras, que a câmara criou e ao qual vai dar o nome do poeta espanhol Miguel Hernandez. “Dedicámos-lhe o jardim porque ele foi preso aqui em 1940, e entregue aos franquistas. É uma forma de reparar o que lhe fizeram.”

O vereador espreita pelo portão do jardim, onde, a três dias da inauguração, alguns funcionários municipais caiam o muro. A ideia da câmara foi aproveitar o jardim abandonado de um antigo palacete onde funcionou o Grémio da Lavoura, e plantar ali oliveiras de diferentes tipos.

Uma delas, logo à entrada, é um autêntico monumento, com um tronco artisticamente retorcido. O vereador mostra no telemóvel uma fotografia da árvore quando ainda se encontrava no caminho municipal, de onde foi retirada para pôr ali. Do outro lado da rua fica o antigo Lagar de Varas, monumento classificado e que hoje é um pequeno museu.

Santiago Macias percorreu mais de 4000 quilómetros pelo país para contactar todos os produtores de azeite e convidá-los a estar presentes na feira. Não foi fácil. Moura fica no interior do país e a deslocação implica tempo e dinheiro. O vereador tem consciência dos obstáculos, até porque a feira de olivicultura fica “entalada” entre a Ovibeja e a grande feira de olivicultura de Jaén, em Espanha – o tal país que tem 46% da produção mundial de azeite.

É precisamente por isso que Macias decidiu ir buscar alguns trunfos: O chef Chakall irá fazer no sábado às 12h um showcooking de cozinha com azeite. Outro chef, António Negrão, vai apresentar no mesmo dia às 16h os seus bombons à base de azeite e azeitona, e no domingo o CookingLab faz, às 15h30, uma apresentação sobre cozinha molecular com produtos inovadores à base de azeite.